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PROPOSTA NO CONGRESSO

Voto distrital misto: o que é e como funcionaria na urna

Entenda o que é o voto distrital misto, como a PEC pode mudar a eleição de deputados e vereadores e por que a proposta divide o Congresso

Proposta polêmica pode ser aprovada ainda este ano no Congresso Nacional
Foto: Agência Brasil

Você sabe o que é o voto distrital misto? Trata-se de um sistema eleitoral em que o eleitor dá dois votos para o mesmo cargo. Um vai para um candidato do seu distrito e o outro, para um partido. Cada modalidade define metade das vagas em disputa.

Uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) articulada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), prevê a adoção desse modelo no lugar do sistema proporcional. O debate ganhou força no Congresso após o resultado das eleições gerais, com partidos do Centrão à frente da discussão.

Quais eleições mudariam e quando?

A PEC abrange as eleições para deputados federais, estaduais e distritais, além de vereadores. As regras para presidente, governador, prefeito e senador permaneceriam as mesmas.

Se aprovada, a proposta prevê duas etapas:

  • 2030: período de transição, com possibilidade de adoção temporária do modelo conhecido como “distritão”.
  • 2034: adoção integral e obrigatória do voto distrital misto em todo o país.

Como funcionariam os dois votos na urna?

Para entender a divisão, imagine como seria a eleição para as 46 vagas de deputado federal do Rio de Janeiro. Nesse exemplo, 23 cadeiras seriam preenchidas nos distritos e as outras 23, pelo voto nos partidos.

Primeiro voto — candidato do distrito

A Justiça Eleitoral dividiria o estado em 23 distritos com base no número de habitantes. Cada partido poderia lançar um candidato por distrito. O eleitor escolheria entre os nomes da sua região, e o mais votado ali ficaria com a vaga.

Segundo voto — lista do partido

Antes da eleição, cada partido divulgaria uma lista fechada, com os candidatos em ordem de prioridade. Na urna, o eleitor escolheria a legenda. Se um partido recebesse votos suficientes para conquistar dez cadeiras, por exemplo, os dez primeiros nomes da lista seriam eleitos.

Por que o Centrão defende a mudança?

O resultado das eleições gerais colocou o PL na posição de maior bancada da Câmara, com 121 cadeiras. Na avaliação de partidos como Republicanos, PP e MDB, a polarização e o alcance das redes sociais reduziram o espaço de candidatos com atuação regional.

Pelo sistema proporcional atual, uma votação expressiva de um candidato ajuda a legenda a eleger outros nomes. Com a PEC, partidos do Centrão buscam reduzir o peso dos chamados puxadores de votos, entre eles parlamentares que conquistam eleitores nas redes sociais em todo o estado.

Quais são os argumentos a favor e contra o voto distrital misto?

O que dizem os defensores?

  • Campanhas mais baratas. Concentrar a campanha em uma região pode reduzir os gastos com deslocamento, comícios e publicidade.
  • Cobrança mais direta. O eleitor saberia quem representa seu distrito e a quem recorrer para cobrar atenção a demandas locais, como saúde e infraestrutura.

O que dizem os críticos?

  • Pressão de facções e milícias. Parlamentares alertam que grupos armados poderiam usar o controle de determinados territórios para coagir eleitores e dificultar a concorrência.
  • Dificuldade para candidaturas com apoio disperso. Representantes de grupos negros, indígenas e LGBTQIA+, assim como de causas ambientais, podem ter apoio em várias partes do estado e ainda assim ter dificuldade para vencer em um distrito.
  • Mais poder para as direções partidárias. Como a posição na lista define quem tem prioridade para ocupar as vagas conquistadas pela legenda, críticos temem que as cúpulas favoreçam nomes já estabelecidos e dificultem a renovação.

O que falta para a PEC ser aprovada?

Na Câmara, a proposta precisa passar pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e por uma comissão especial antes de ir ao plenário. A aprovação exige 308 votos na Câmara e 49 no Senado, em dois turnos em cada Casa.

O PL resiste à mudança por temer perder força na Câmara. O PT e outros partidos de esquerda veem com cautela a possibilidade de alterar as regras para enfraquecer um adversário. Hugo Motta busca uma redação que permita construir um acordo entre as bancadas.

Aécio de Paula
Sobre o autor

Aécio de Paula

Jornalista

Jornalista formado pela Universidade Católica de Pernambuco (2015), com pós-graduação em Direitos Humanos (2018). Tem experiência na cobertura esportiva, com matérias, conteúdo para redes sociais e a produção e apresentação de um podcast de futebol, além de artigos sobre esportes olímpicos. Também escreve sobre política e cinema, desenvolveu um projeto sobre a defesa das minorias sociais em campanhas eleitorais e codirigiu um documentário sobre as pessoas que dependem do Rio Capibaribe.