O economista André Lara Resende, um dos formuladores do Plano Real, atribui ao Banco Central (BC) a principal responsabilidade pelo desequilíbrio das contas públicas. Em artigo publicado no Substack, ele argumenta que o peso dos juros da dívida explicaria boa parte do rombo. O texto ganhou repercussão nos últimos dias e propõe novas regras para a condução da política fiscal e monetária.
“Acuso o Banco Central de sustentar, em nome de uma teoria anacrônica, a taxa de juros que é a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater”, escreveu Lara Resende. Ex-diretor do BC e ex-presidente do BNDES, ele se formou pela PUC do Rio e tem doutorado em economia pelo MIT, nos Estados Unidos.
O que André Lara Resende critica no Banco Central?
Lara Resende questiona os argumentos que o Banco Central e analistas do mercado financeiro usam para defender juros elevados. Em 2 de novembro, a Selic estava em 13,75% ao ano, patamar definido pelo Copom em setembro. Na edição de 16 de setembro do Ranking Mundial de Juros Reais, elaborado pela MoneYou e pela Lev Intelligence, o Brasil ficou em primeiro lugar entre os 40 países avaliados.
A crítica também se estende à imprensa e aos analistas do mercado. Na avaliação do economista, a cobertura dá peso excessivo aos gastos do governo e deixa em segundo plano o custo dos juros. Ele também acusa analistas de tratar os interesses de quem recebe esses rendimentos como se fossem os da economia como um todo.
O BC sustenta que os juros elevados ajudam a conter a inflação. Entre os fatores que pressionam os preços, o Comitê de Política Monetária (Copom) aponta o aquecimento da economia e do mercado de trabalho, além da trajetória das despesas públicas. Na ata de setembro, o comitê também alertou que a incerteza sobre a estabilização da dívida pública pode elevar a taxa de juros.
O déficit fiscal do Brasil é alto?
A resposta de Lara Resende depende de quais despesas entram na conta. Segundo ele, o déficit primário, que exclui os juros da dívida, é pequeno na comparação com outros países. O economista reconhece que o Brasil gasta mal e cita emendas parlamentares, vantagens salariais no Judiciário e isenções tributárias como exemplos.
Lara Resende considera insustentável o ritmo de crescimento da dívida. Para ele, cortar despesas com serviços públicos seria insuficiente para frear esse avanço enquanto os juros continuarem altos.
Juros altos ainda controlam a inflação?
Lara Resende questiona a ideia de que elevar os juros para esfriar a economia e aumentar o desemprego seja a saída para conter a inflação.
O debate ocorre num momento em que a taxa de desemprego caiu para 5,2%, o menor nível para um terceiro trimestre desde o início da série histórica, em 2012. O IBGE divulgou o dado em 30 de outubro.
O economista admite que uma redução da Selic pode pressionar os preços, mas avalia que o efeito seria passageiro.
Qual é a proposta do economista?
Lara Resende propõe que as metas fiscais e de juros sejam anunciadas em conjunto, com um horizonte de quatro a cinco anos. Nesse modelo, o BC manteria a Selic numa faixa entre a meta de inflação, de 3%, e a estimativa de quanto a economia pode crescer em termos nominais.
Ele também defende que o Banco Central use as reservas internacionais, que, segundo o economista, superam US$ 350 bilhões, para evitar uma desvalorização forte do real.
A discussão ganhou atualidade com a maior alta semanal do dólar desde 2008, registrada na semana encerrada em 30 de outubro. O artigo já circulava antes desse movimento no câmbio.
Com informações da Agência Brasil.